A popularização dos celulares, das redes sociais e dos aplicativos de mensagem, essas conversas passaram a caber em uma tela
Uma análise publicada neste ano na revista Perspectives on Psychological Science calcula que, entre 2005 e 2019, houve uma redução de 338 palavras faladas por dia a cada ano. Ao longo de 12 meses, essa perda diária equivale a mais de 120 mil palavras a menos. No período, a queda estimada chegou a cerca de 28%.
Os autores não apontam uma causa definida para a redução da fala, mas levantam a possibilidade de relação com o avanço da comunicação digital no período. Entre os menores de 25 anos, maiores usuários dessas ferramentas, a queda anual foi 44% maior que entre os adultos mais velhos.
"As pessoas saem menos de casa e, mesmo quando saem, num jantar, por exemplo, sempre estão com o celular e dão uma olhadinha no Instagram, no WhatsApp, no TikTok, e acabam conversando menos", afirma a fonoaudióloga Luciana Macedo de Rezende, professora na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
A especialista aponta que a própria troca de mensagens contribui para uma comunicação com menos palavras, marcada por abreviações e gírias, comportamento que afeta especialmente os jovens. A Folha mostrou, em maio, que gírias da geração Z desafiam a comunicação com as mães, por exemplo.
Mas por que a redução das conversas no dia a dia pode ser preocupante?
Uma conversa presencial é uma tarefa cognitiva complexa. Enquanto ouve o que o outro diz, a pessoa precisa compreender as palavras, acompanhar o contexto, formular uma resposta e perceber elementos como entonação, ritmo da fala, expressões faciais e gestos.
Isso mobiliza habilidades relacionadas à linguagem, à memória, à atenção e às funções executivas, afirma a fonoaudióloga Bárbara Costa Beber, professora na UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre).
Para o neurologista Fábio Henrique Porto, presidente da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer), a preocupação é que uma menor exposição à linguagem ao longo da vida possa significar menos estímulo a essas habilidades e, consequentemente, ter algum impacto sobre a chamada reserva cognitiva --capacidade do cérebro manter as funções cognitivas mesmo diante de alterações causadas pelo envelhecimento ou por doenças.
Ainda não há evidência de que a redução das conversas observada atualmente esteja diminuindo a reserva cognitiva, que pode retardar o aparecimento de sintomas de demência. Mas Porto afirma que ela é construída ao longo da vida e que hábitos mantidos desde a juventude podem ter repercussões no envelhecimento. "O que eu faço hoje vai importar daqui a 20 anos", diz.
A menor frequência da fala e, por consequência, das interações sociais também pode estar associada ao isolamento social, fator de risco para ansiedade e depressão em todas as idades e, entre idosos, ao declínio cognitivo e às demências, como a doença de Alzheimer.
Segundo o relatório de 2024 da Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado da demência, a eliminação do isolamento social na população poderia teoricamente prevenir ou adiar 5% de todos os casos de demência. O contato social, segundo o artigo, ajuda a preservar a reserva cognitiva e a estimular hábitos saudáveis, de modo que sua falta enfraquece essa proteção.
Rezende reconhece a importância das redes sociais e das telas em geral para a comunicação e a veiculação de informações, por exemplo. Mas afirma que é importante monitorar o tempo de uso e buscar alternativas no dia a dia para manter a interação social.
"É muito cômodo você ficar lá rolando nos vídeos infinitos, quando vê já passou duas horas do dia. O problema não é a rede em si, é o tempo que a pessoa passa na rede. Manda mensagem, mas quando possível liga também para conversar com a pessoa", acrescenta.
Crianças e adolescentes
A preocupação é maior entre crianças e jovens porque, quanto mais cedo ocorre a redução das interações, por mais tempo seus possíveis efeitos podem acompanhar o desenvolvimento cerebral, afirma Beber.
Um estudo publicado em 2020 na revista Jama Pediatrics analisou 42 pesquisas, com 18.905 crianças, e mostrou que maior tempo de tela estava associado a menores habilidades de linguagem.
A redução das conversas também pode afetar as próprias habilidades de comunicação. Vocabulário, fluência, formulação de frases e a capacidade de iniciar e manter uma conversa são desenvolvidos com a prática.
"Se a gente fala menos, conversa menos, as nossas habilidades conversacionais e de interação também vão ser limitadas", diz Beber
Cembranel acrescenta que falar cada vez menos pode criar um ciclo em que a pessoa passa a evitar ainda mais interações.
"No curto prazo, não falar pode trazer um alívio. O problema é que esse alívio pode reforçar a própria evitação. Quanto menos a pessoa se expõe às interações, menos oportunidades ela tem de perceber que consegue conversar, tolerar desconforto, cometer uma pequena gafe e continuar presente ali", explica.
(Com informações do Estado de Minas)
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