Uma mosca pousando no prato costuma provocar uma reação imediata: espantar o inseto e decidir se a comida ainda pode ser consumida. A ciência confirma que há possibilidade de contaminação, mas não existe uma quantidade de segundos a partir da qual o alimento se torna impróprio.
O risco depende do local de onde a mosca veio, do tempo de contato, da quantidade de insetos e das características da comida. Alimentos úmidos e prontos para consumo, como carnes, queijos frescos, molhos, saladas e frutas cortadas, merecem cuidado maior.
Como a mosca contamina os alimentos?
A mosca-doméstica, de nome científico Musca domestica, costuma frequentar lixo, fezes, carcaças e matéria orgânica em decomposição. Nesses ambientes, pode recolher microrganismos nas patas, asas, peças bucais e no aparelho digestivo.
Ao pousar na comida, o inseto pode depositar parte desse material. A transmissão é chamada de mecânica porque a mosca funciona como transportadora entre uma superfície contaminada e outra.
Além do contato pelas patas, as moscas podem regurgitar conteúdo digestivo para dissolver alimentos sólidos antes de sugá-los. Elas também podem eliminar fezes enquanto caminham. Uma revisão publicada no BMC Public Health analisou 99 estudos e identificou mais de 130 agentes potencialmente patogênicos associados às moscas domésticas, principalmente bactérias.
Outro estudo publicado na Scientific Reports analisou 116 moscas domésticas e varejeiras de três continentes. As patas e as asas apresentaram grande diversidade bacteriana e foram apontadas como importantes caminhos para a dispersão de microrganismos. Esses resultados demonstram o potencial de transporte, mas não significam que todo pouso causará doença.
Pesquisa brasileira encontrou Salmonella e E. coli. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Alimentos de São Paulo, o Ital, encontrou Escherichia coli e bactérias do gênero Salmonella em moscas capturadas em uma área de produção artesanal de queijo Minas frescal.
Os microrganismos foram transferidos para o queijo durante o contato e permaneceram viáveis no armazenamento. O experimento, porém, utilizou 30 moscas durante uma hora, situação diferente de um único inseto que pousa rapidamente no prato.
O trabalho comprova a capacidade de contaminação, mas não permite calcular o risco de um contato de poucos segundos. Os resultados estão no artigo publicado pelo Brazilian Journal of Food Technology.
Em outro experimento, realizado no Japão, moscas previamente expostas a E. coli transferiram a bactéria para maçã, bolo e uma mistura de leite e açúcar dentro do primeiro período analisado, de cinco minutos. A quantidade variou de acordo com o alimento, o tempo de contato e a carga bacteriana carregada pelo inseto.
O que orienta a Anvisa?
A RDC nº 216/2004, da Anvisa, determina que estabelecimentos de alimentação mantenham instalações, equipamentos e utensílios livres de vetores e pragas urbanas. A cartilha de boas práticas da agência também recomenda proteger os alimentos contra insetos, reduzir o intervalo entre o preparo e o consumo e conservar comidas quentes acima de 60°C ou frias abaixo de 5°C.
Já a Fiocruz explica que moscas podem transportar agentes contaminantes depois de pousarem em fezes, feridas e animais mortos. Porém, nenhum desses órgãos estabelece uma regra do tipo "pousou por tantos segundos, descarte".
Afinal, é preciso jogar fora?
Um contato rápido de uma única mosca provavelmente representa risco baixo para um adulto saudável, mas não oferece garantia de segurança. Não é possível saber por onde o inseto passou nem quais microrganismos carrega.
O descarte é mais prudente quando a comida ficou exposta sem supervisão. Ou seja, quando a mosca permaneceu andando ou se alimentando sobre ela, havia vários insetos ou o ambiente apresentava lixo, esgoto ou problemas de higiene.
O cuidado deve ser ainda maior se o alimento for consumido por crianças pequenas, idosos, gestantes ou pessoas com imunidade comprometida. Retirar apenas o ponto tocado não elimina necessariamente a contaminação, principalmente em comidas úmidas, pastosas ou líquidas. Na dúvida, a opção sanitariamente mais segura é descartar o alimento.
(Com informações do UOL)
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