Por que sentimos culpa quando descansamos?

 Culpa por descansar é própria da vida acelerada


Sabe aquela agonia que dá quando a gente fica sem fazer nada e se sente improdutivo? Aquele siricotico do primeiro dia de férias, quando a gente ainda não entrou no ritmo do descanso e a cabeça ainda está a mil, com um monte de demandas? Ou mesmo aquela vontade de pegar o celular para fazer alguma coisa quando podemos respirar no meio das tarefas cotidianas? E talvez caiba nesta lista também a aflição e a culpa que sentimos quando não damos conta de meia dúzia de tarefas que tínhamos nos planejado para fazer?

A esta agonia eu tenho dado o nome de culpa temporal, um tipo específico de culpa, que nasce da relação que temos desenvolvido entre tempo, produtividade e descanso.

Quem me acompanha aqui aos domingos sabe que eu venho afirmando que estamos doentes de velocidade. E tenho olhado para diferentes "sintomas" desta doença e como eles se manifestam nos nossos corpos.

Tenho falado da importância de observar, nomear e não normalizar estes sintomas, porque quando transformamos um comportamento, hábito ou atitude em algo normal, isso acaba virando uma regra e quando isso é um grande absurdo é mais absurdo ainda que transformemos em norma.


A culpa temporal é uma destas coisas que estamos correndo o risco de normalizar. Quando ando por aí denunciando a vida acelerada que vivemos, as lógicas da sociedade do cansaço e do regime temporal ininterrupto 24/7, é comum que as pessoas me contem que sentem esta culpa e que, diante dela, se sentem constrangidas, obrigadas a fazer alguma coisa. Geralmente, alguma coisa produtiva.


Eu contei para vocês aqui que uma das minhas inspirações de pesquisa é o filósofo indígena Ailton Krenak. É dele a obra chamada "A vida não é útil"; e a ideia que ele defende é de que nesta sociedade que valoriza apenas o trabalho, a produtividade e o consumo, qualquer coisa que não esteja nestes âmbitos "não serve para nada".


Além disso, tudo que é "inútil" não merece nossas preciosas fatias de tempo.


Festa, descanso, pensamento, arte, afeto, rituais? Não fazer nada? Existe um rol de coisas absolutamente proibidas na cartilha da produtividade tóxica. E, quando fazemos estas coisas, nos sentimos culpados.

Em um mundo em que o descanso, a festa, a arte se tornam "privilégios de tempo" (quem pode escolher dedicar tempo ao que não é útil se vivemos em um regime permanente de sobrevivência?), dedicar tempo a estas coisas se torna uma espécie de "crime".


Por outro lado, queremos um mundo em que não seja um privilégio dedicar tempo para estas coisas. Enquanto isso não acontece, quem pode dedicar tempo a coisas inúteis, se sente culpado; e quem não pode se sente igualmente angustiado.


Esta culpa é própria da vida acelerada. Ela é uma distorção. É uma criação da sociedade doente de velocidade na qual vivemos. Não deveríamos sentir isso, mas se sentimos e se não é apenas uma pessoa que sente, precisamos cuidar disso coletivamente para que não transformemos este tipo de culpa em algo que consideramos normal.


Acredito que faremos isso falando, dando nome ao que estamos observando, conversando sobre isso, criando bons combinados relacionados ao descanso nos ambientes em que estamos e atuamos (sejam eles grupos de amigos, famílias, trabalhos). E, devemos — sempre que possível — lutar contra esta culpa internamente e nos permitir pausas, descanso e sossego quando nos é de direito e de possibilidade.


Mais do que necessário e constitutivo da experiência humana, o descanso é um direito. E a culpa por não produzir nada é uma enfermidade deste mundo que nos quer 24 horas por dia, 7 dias por semana trabalhando, produzindo, consumindo e rolando o feed,

(Com informações do UOL)

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