Por que falamos sozinhos e quando isso pode ser um alerta

Falar sozinho pode ser apenas uma forma natural de organizar pensamentos e manter o foco


Falar sozinho é mais comum do que parece. O comportamento costuma aparecer quando queremos nos concentrar em algo ou organizar nossas próprias ações, principalmente quando vem acompanhado de voz alta ou movimentos de boca, como ao tentar lembrar o nome de um produto ou seguir um passo a passo.

A ciência já demonstrou que repetir o nome de algo durante uma busca funciona bem quando o objeto é familiar. O recurso pode melhorar o rendimento motor ou cognitivo em tarefas esportivas e intelectuais, além de estimular a iniciativa. Mas a estratégia tem limites: um estudo publicado no periódico Quarterly Journal of Experimental Psychology, conduzido por pesquisadores das universidades de Wisconsin-Madison e da Pensilvânia (EUA), mostrou que repetir em voz alta o nome de algo desconhecido pode não ajudar em nada —e até atrapalhar a busca.

Quando é só um hábito

Na maior parte das vezes, falar sozinho é uma estratégia natural do cérebro. A fala pode surgir de forma inconsciente para organizar prioridades mentais, reduzir excessos de informação e manter o foco, evitando dispersões. Verbalizar o que se sente e ouvir a si mesmo também ajuda a autorregular as emoções. Nesses casos, a pessoa costuma ter clareza de que está conversando consigo mesma. 

O hábito muda de cara conforme a fase da vida. Crianças pequenas falam e riem sozinhas para externalizar o que sentem e aprendem, ou durante brincadeiras que envolvem, ou não, amigos imaginários —comportamento que merece atenção redobrada quando acontece associado a mentiras, quando a criança transfere a culpa para alguém imaginário, ou quando passa muito tempo isolada.

Adolescentes e adultos jovens costumam recorrer à autoafirmação diante do espelho, um jeito de reforçar a autoestima sem precisar dividir emoções com outra pessoa. O exercício de autoescuta também ajuda a organizar o raciocínio na hora de tomar decisões ou resolver problemas.

Já no envelhecimento, o hábito de falar sozinho pode se intensificar, com ou sem relação com quadros de demência. As falhas de memória esperadas para a idade começam por volta dos 30 anos e se acentuam a cada década, resultado da perda natural de neurônios —o que explica a dificuldade crescente em lembrar palavras e nomes. 

Quando o comportamento é sintoma

A diferença começa na percepção: como sintoma de doença, falar sozinho costuma se parecer mais com uma conversa com outra pessoa, sem que o indivíduo perceba. O comportamento pode aparecer na esquizofrenia, quando a pessoa ouve vozes e responde a elas, além de transtornos de humor, psicoses, bipolaridade e depressão. Fora do campo psiquiátrico, também pode estar ligado a problemas de audição.

Ansiedade, estresse e fobia social também podem levar a monólogos, chamados pelos médicos de solilóquios. Quando isolados e esporádicos, esses episódios não representam problema. Podem até se tornar um costume, como murmurar durante a leitura ou em frente à TV. O sinal de alerta é um diálogo em total desacordo com a realidade, em tom tenso ou ameaçador, acompanhado de gestos.

Os diálogos internos passam a preocupar quando causam sofrimento ou atrapalham relações e atividades do dia a dia. É preciso atenção especial quando a pessoa não percebe ou não consegue conter esse comportamento diante de outras pessoas, ou relata ouvir vozes e ordens.

Nesses casos, o acompanhamento de neurologista ou psiquiatra é indicado, e o suporte psicológico ajuda a entender o que está por trás do comportamento —que pode envolver dificuldade de socialização, traumas ou perdas.

Com crianças, pais e cuidadores não devem reprimir fantasias com cobranças ou castigos, mas vale procurar um médico se a criança já tiver idade para distinguir realidade de imaginação e continuar dizendo que ouve o que mais ninguém ouve. Em idosos, confusão, esquecimento, mudanças de humor e problemas na fala podem ser sinais iniciais de Alzheimer e merecem avaliação de um geriatra. 

(Com informações do UOL)

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