Por que desviamos o olhar durante uma conversa, segundo a psicologia

 


Desviar o olhar durante uma conversa é um daqueles comportamentos que quase todo mundo interpreta da mesma forma: a pessoa está mentindo, não está interessada ou tem algo a esconder. Essa leitura ganhou respaldo popular com a PNL, a programação neurolinguística, conjunto de técnicas criado nos anos 1970 com a promessa de decifrar pensamentos humanos a partir de movimentos oculares. O problema é que a ciência não confirma essa história.

Um estudo conduzido por pesquisadores das universidades de Hertfordshire e Edimburgo, no Reino Unido, e da Colúmbia Britânica, no Canadá, publicado em 2012, não encontrou evidências de que mentirosos tendam a desviar o olhar com mais frequência do que quem diz a verdade. O comportamento existe, mas suas causas são bem mais variadas, e menos comprometedoras, do que o senso comum sugere.

O que está por trás do olhar desviado

O cérebro também recorre a esse recurso quando precisa de concentração extra. Uma pesquisa da Universidade de Tóquio, publicada em 2016 na revista Cognition, mostrou que a probabilidade de desviar os olhos aumenta quando tentamos recuperar da memória uma palavra ou termo pouco usado. Manter contato visual enquanto se pensa, fala e ainda interpreta a linguagem não verbal do outro é uma tarefa cognitivamente exigente, e o cérebro simplesmente alivia a carga cortando o estímulo visual.

Baixa autoestima e padrões de submissão aprendidos também entram na conta. Em contextos de criação muito autoritária, evitar o olhar direto pode ter sido ensinado como forma de não confrontar figuras de autoridade, e esse padrão segue operando na vida adulta sem que a pessoa perceba. No Transtorno de Personalidade Dependente, a dificuldade de sustentar o olhar reflete um sentimento persistente de inferioridade, a ponto de se submeter a exigências descabidas porque teme perder aprovação.

No Transtorno do Espectro Autista, o contato visual costuma ser mais breve ou ausente, especialmente com pessoas fora do convívio próximo. Isso se conecta a uma dificuldade genuína de processar expressões faciais, não a desinteresse ou desonestidade.

A mentira, vale dizer, não está fora da lista. Olhar nos olhos estabelece uma conexão, e quem mente pode desviar o olhar por insegurança de ser lido pelo outro. Mas é apenas uma entre várias possibilidades, não a regra.

Como lidar

Para quem está do lado de fora da conversa, interpretar o olhar desviado como descaso ou falsidade raramente é a leitura mais precisa. Com tantos fatores possíveis por trás do comportamento, a resposta mais sensata é não tirar conclusões precipitadas.

Para quem vive essa dificuldade, forçar um olhar fixo e constante não resolve, e pode até incomodar o interlocutor. O caminho mais eficaz é nomear o que está acontecendo —timidez, nervosismo, falta de concentração— sem tentar performar uma naturalidade que não existe.

(Com informações do UOL)

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