Você provavelmente já sabe o que acontece quando dorme pouco: o corpo cobra a conta no dia seguinte com cansaço, irritabilidade e aquela névoa mental que não passa. No longo prazo, a privação de sono aumenta o risco de depressão e ansiedade. O que pouca gente sabe é que o excesso de horas na cama carrega riscos parecidos.
Dados populacionais mostram que quem dorme mais de 9 horas ou menos de 7 horas tende a acumular mais problemas de saúde ao longo da vida. A relação, porém, ainda não é de causa e efeito: trata-se de uma associação estatística, e os mecanismos exatos que ligam o sono ruim a doenças seguem sendo investigados.
O ponto mais revelador dessa história está em quem dorme dez horas por noite achando que está descansando bem. Na maior parte dos casos, o problema não é excesso de sono, mas baixa eficiência. Dez horas na cama podem equivaler a cinco horas de sono real, especialmente em pessoas com apneia obstrutiva, em que o bloqueio das vias aéreas fragmenta o descanso sem que o dorminhoco perceba. A apneia, por sua vez, aumenta o risco de doenças cardiovasculares, criando um ciclo difícil de romper sem diagnóstico.
Os riscos associados a dormir mal, seja por excesso ou falta, incluem doenças cardiovasculares, comprometimento da memória e maior vulnerabilidade a demências. A obesidade entra nessa equação dos dois lados: ela favorece distúrbios do sono e é favorecida por eles. Pessoas com IMC acima de 30 formam um grupo de risco relevante para apneias.
Vale lembrar que existe variação individual considerável. Há quem funcione bem com menos de seis horas e quem precise de mais de nove para se sentir em plena forma. Sete em cada dez brasileiros, no entanto, enfrentam algum transtorno relacionado ao sono, sendo a insônia o mais comum. O problema atinge com mais força mulheres e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, e tende a se intensificar em períodos de transição hormonal, como a menopausa.
O sono não é só seu
Boa parte das orientações sobre higiene do sono pressupõe que basta ajustar hábitos individuais. Essa lógica tem um limite claro. Uma pessoa que não consegue dormir porque escuta tiros pela janela não vai resolver seu problema com técnicas de relaxamento.
O sono é atravessado por condições que vão além do quarto: barulho urbano, iluminação externa, segurança pública, habitação adequada. Sem políticas públicas voltadas a esses fatores, as orientações clínicas ficam circunscritas a quem já tem condições mínimas para aplicá-las.
Intervenções mais eficazes precisam considerar o contexto familiar, já que o padrão de sono de uma pessoa afeta quem dorme ao lado dela, e o contexto comunitário, levando em conta infraestrutura, ruído e luminosidade do entorno.
Armadilha dos remédios
Apesar de não serem a primeira escolha recomendada para transtornos do sono, os medicamentos costumam ser justamente o que os pacientes recebem primeiro. O uso de hipnóticos é considerado elevado e preocupante entre especialistas da área.
As chamadas drogas Z, que incluem zolpidem, zopiclone e zaleplona, são aprovadas para o tratamento de insônia e bem toleradas em uso de curto prazo. O problema está no uso prolongado, que ultrapassa em muito os estudos de eficácia disponíveis. Entre os efeitos adversos documentados estão sonolência diurna, comprometimento cognitivo, sonambulismo, aumento do risco de quedas e acidentes de trânsito.
A sedação residual é particularmente traiçoeira: o paciente pode apresentar prejuízo psicomotor real mesmo se sentindo desperto, o que tem sido associado a um aumento expressivo de acidentes fatais e não fatais entre usuários dessas substâncias.
A melatonina ocupa um espaço diferente nessa discussão. Disponível no Brasil como suplemento alimentar, ela tem indicação legítima para transtornos do ritmo circadiano, mas virou uma espécie de solução popular para a insônia, uso para o qual não há evidências científicas sólidas. Por ser suplemento, não medicamento, sua qualidade é menos regulada, o que adiciona outra camada de incerteza para quem a consome sem orientação médica.
(Com informações do UOL)
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