O aumento de eventos extremos provoca a "ansiedade climática" em algumas pessoas; os efeitos impactam diretamente o bem-estar emocional
Com o aumento da frequência e intensidade dos eventos climáticos, principalmente em escalas extremas, os impactos não se limitam apenas ao ambiente físico, mas também provocam efeitos significativos na saúde mental das pessoas.
Para entender como essa relação se estabelece, o iG ouviu Cristina Altisent, psicóloga e neuropsicóloga especializada em saúde mental organizacional, que destaca que fenômenos como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor provocam impactos psicológicos significativos na população.
“O clima não afeta só o ambiente externo, ele afeta diretamente a nossa sensação interna de segurança, porque nos obriga a lidar com a imprevisibilidade, e o corpo percebe isso antes mesmo da mente conseguir organizar em palavras, a partir de uma interpretação neurológica muito primária", afirma a especialista.
Cristina esclarece que quando a percepção fundamental de estabilidade, ou seja, a ideia de que o amanhã será previsível e seguro, é quebrada, ocorre um impacto imediato nas emoções, despertando sentimentos de medo e insegurança.
"Quando essa base se rompe, emoções como medo aparecem e, como consequência, a insegurança ganha espaço, porque são ativados esquemas centrais ligados à vulnerabilidade, ao desamparo e à sensação de falta de controle", explica.
Para muitos, o medo não se manifesta como algo pontual, mas como uma ansiedade constante.
" O corpo permanece em estado de alerta por tempo prolongado e isso vai se expressando em tensão muscular, irritabilidade, dificuldade de relaxar, alterações no sono e até sintomas físicos, mesmo quando a pessoa não consegue identificar exatamente do que está com medo", detalha a especialista.
A ansiedade climática é uma sensação difusa de angústia e apreensão em relação aos impactos das mudanças climáticas. Porém, de acordo com a psicóloga, esse quadro raramente aparece como um medo isolado do clima e tende a se misturar com outras preocupações excessivas.
Cristina alerta que os sinais de ansiedade podem se manifestar no dia a dia de diversas maneiras: “Pode aparecer como dificuldade para dormir após receber notícias sobre o meio ambiente, pensamentos repetitivos sobre o futuro, culpa intensa sobre hábitos de consumo ou até uma sensação de luto antecipado pelo mundo que está mudando”.
Um dos maiores sinais de alerta é quando essas preocupações começam a afetar diretamente a vida da pessoa, prejudicando o funcionamento diário no trabalho, relacionamentos e também no autocuidado.
Grupos mais vulneráveis
A especialista também destaca que algumas pessoas são mais vulneráveis aos impactos psicológicos causados pelas mudanças climáticas. E cita aquelas que já possuem histórico de ansiedade, depressão ou outros sofrimentos emocionais.
Ela ainda enfatiza que crianças e adolescentes também fazem parte desse grupo, pois estão em uma fase de formação da visão de mundo. Além disso, indivíduos em situações de maior vulnerabilidade social, com menos acesso a recursos ou redes de apoio, sentem esses impactos de forma mais intensa.
"Do ponto de vista da terapia dos esquemas, pessoas com esquemas de vulnerabilidade, desamparo, pessimismo ou responsabilidade excessiva tendem a interpretar as mudanças climáticas como uma ameaça contínua e difícil de controlar. Quando isso se soma a desigualdades sociais e à falta de proteção concreta, o sentimento de impotência se intensifica e o sofrimento emocional tende a se prolongar", complementa Cristina.
Preocupação saudável x quadro clínico de ansiedade
A psicóloga explica que uma preocupação saudável com o meio ambiente gera consciência e mobiliza atitudes possíveis sem dominar toda a vida emocional da pessoa. "Ela permite pausas, descanso, prazer e vínculo, mesmo existindo inquietação", afirma.
No entanto, quando essa preocupação evolui para um quadro de ansiedade, o tema começa a dominar os pensamentos, o corpo fica em constante alerta e o sofrimento limita a vida.
Segundo Cristina Altisent, na prática clínica, um critério importante é observar o impacto no funcionamento diário. Quando a pessoa não consegue se desligar do assunto, vive com medo persistente, culpa excessiva ou sensação constante de ameaça, isso começa a afetar o sono, o trabalho, os relacionamentos e o autocuidado, indicando que o acompanhamento psicológico pode ser necessário.
"Saúde mental não é exagero (mimimi), e cuidar da saúde mental não diminui o compromisso com o meio ambiente. Pelo contrário, pessoas emocionalmente mais reguladas conseguem se engajar de forma mais sustentável, sem adoecer no processo", observa a especialista.
Estratégias terapêuticas
Questionada sobre as principais estratégias terapêuticas para lidar com esse sofrimento emocional provocado pelas preocupações ambientais, Cristina recomenda de forma inicial, validar esse sentimento.
“Na clínica, a primeira coisa é validar esse sofrimento, e isso não significa dizer que a pessoa está exagerando ou que não deveria se preocupar, porque o mundo realmente está mudando. O processo terapêutico passa por ajudar a pessoa a perceber o que está sob o controle dela e o que não está, para que ela não fique presa o tempo todo nesse estado constante de alerta e impotência”.
O processo terapêutico envolve técnicas de regulação emocional, identificando sinais do próprio corpo em situações de vulnerabilidade e desamparo, e também ajudando a pessoa a desacelerar o ritmo, saindo de um estado de urgência constante.
A psicóloga destaca também a importância de criar pausas reais para escapar do excesso de informação e ajudar a pessoa a se reconectar com o presente, com seu corpo e com rotinas que tragam mais previsibilidade e segurança.
"Aos poucos, o trabalho é transformar a sensação de paralisia em ações pequenas e possíveis, alinhadas com os valores da pessoa, sem cair na autocobrança ou na ideia de que precisa dar conta de tudo. Quando a ação faz sentido emocionalmente, ela devolve uma sensação de atuação ativa, de cuidado e ajuda a diminuir a sensação de impotência, tanto em relação a si quanto ao mundo", conclui.
(Com informações do iG)
Comentários
Postar um comentário