Se todos estamos cansados e sem tempo, quem vai conseguir cuidar do outro?

 


Estes dias, compartilhei um meme que dizia "ninguém tá 100%: toda minha rede de apoio está precisando de apoio". E fiquei pensando, primeiro, na incrível capacidade que a internet tem de fazer piada com tudo (algumas delas, inclusive - não me levem a mal -, terminam banalizando questões ultra sérias). Neste caso, uma piada com o que chamei aqui de dezembrite.

Segundo, fiquei pensando que é muito séria a percepção de que estamos todos precisando de ajuda e poucos de nós estamos em condição de oferecer. A conta do cuidado não fecha.

E isso não é um mero acaso. Tenho discutido a questão dos nossos corpos cansados. Eles não são consequências do mundo acelerado, mas o motor essencial, engrenagem para que este mundo funcione.

Um corpo exausto não tem condição de parar nem para reclamar. Se torna uma máquina. Se anestesia e entra no automático para não parar e segue trabalhando, produzindo, performando e consumindo. Corpo cansado e orientado à performance não cultiva relações, não cria vínculos, não tece comunidade.

Se estamos todos cansados, quem apoia quem? Quem ajuda quem a atravessar um momento difícil?

Acreditem: eu presenciei recentemente uma série de diálogos em que as pessoas pareciam "competir" pelo posto de mais exausto(a), para saber quem estava precisando de mais cuidado que quem; e como se isso fosse até um (doentio) status.

Em terceiro lugar, fiquei pensando que mais do que não fechar a conta do cuidado, se estamos todos sempre exaustos, como teremos tempo, energia e interesse em nutrir as relações desta suposta 'rede' que poderia nos apoiar nos momentos mais difíceis?

Serviço ou laço?

Comecei a pesquisar sobre o assunto, porque me mobilizei para escrever sobre ele e fiquei bem impactada por um conteúdo do perfil SouPagu, do Instagram, que discute justamente como - ao não construir os laços que sustentam uma rede, uma comunidade - somos utilitários com a ideia de que as pessoas precisam "nos atender" e nos socorrer nas nossas urgências. 

O post que me intrigou dizia "rede não é serviço é laço; e laços não se sustentam se forem intermitentes, unidirecionais ou oportunistas". Sim, é isso. A este mundo não interessa que sejamos seres comunitários.

Somos interdependentes e a aceleração sequestra nossa humanidade e nos retira a condição de interesse pelo Outro, a capacidade de escuta, a capacidade de presença e atenção, que são condições para a vinculação.

Lembrei de uma obra do filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han, referência nas minhas pesquisas sobre a sociedade do cansaço. No livro chamado "A expulsão do Outro", ele discute como a nossa capacidade de tecer comunidade foi capturada pela combinação entre cansaço, hipercomunicação e hiperindividualismo.

"O isolamento que caminha de mãos dadas com a falta de solidariedade e a concorrência total, produz angústia. A lógica pérfida do neoliberalismo enuncia: a angústia aumenta a produtividade", afirma o autor.

"Hoje, cada um está, de algum modo, sozinho consigo, com seus sofrimentos, com suas angústias. O sofrimento é privatizado e individualizado. Assim, ele se torna um objeto de terapia, que tenta curar o eu, sua psyché. Todos se envergonham, culpam apenas a si mesmos por fraqueza e insuficiência. Não se produz nenhuma ligação entre meu sofrimento e o seu sofrimento. Ignora-se assim, a socialidade do sofrimento".

O que Han afirma é um escândalo. Enquanto performamos comunidade nas redes, estamos, na verdade, hiperindividualizados, isolados e angustiados, incapazes de tecer vínculos significativos e laços profundos. E este adoecimento é ainda transformado em objeto de mercadoria terapêutica, em venda de soluções milagrosas e receitas de bem-estar que cuidam das pessoas como se estes problemas não fossem coletivos, sociais, sistêmicos.

Esta mesma sociedade nos vende a ideia de que o cuidado é individual e de que estaremos bem se cuidarmos de nós mesmos, de nosso corpo e de nossa mente. Uma falsa ideia de independência que, na verdade, alimenta o hiperindividualismo, que causa todos os adoecimentos pelos quais estamos passando. Falei aqui, inclusive, da solidão epidêmica.

A gente segue precisando de rede de apoio, mas não tem tempo, energia nem fôlego, nem interesse, nem disposição de nutrir relações, construir vínculos e tecer estas comunidades que nos amparam. Queremos amizades de baixa manutenção. E terminamos reclamando (como no meme que abre este texto) que não temos a quem recorrer, porque está todo mundo precisando de ajuda. Terminamos também, estabelecendo com a comunidade uma relação utilitária. E não uma relação de vinculação, intimidade e vida partilhada. Esta que se dá no tempo largo, no tempo do acontecer e não no tempo do "fabricar comunidade".

O que fazer?

A coisa é complexa, porque também não depende apenas de nossa suposta vontade. "Preciso de uma comunidade. Deixa eu ir ali e construir uma".

Não é bem assim que a coisa funciona. Porque para ser comunidade, como o nome diz, precisa ser comum. Precisa haver comunhão. Comunidade não se constrói no tempo urgência, ainda que seja esta comunidade que vai te acudir na emergência. Comunidade se constrói e se sustenta com vida junto, rituais, festejos, celebrações, política, arte, diálogo e tantas outras coisas (inúteis aos olhos deste mundo) que nos fazem gente que, quando em relação genuína, faz um grupo se tornar um coletivo.


O post que me impactou dizia ainda "comunidade não se improvisa no desespero". Sim. Comunidade se cultiva no cotidiano. Mas como vamos construir e ensinar comunidade - como sugere a autora norte-americana Bel Hooks, inspirada na pedagogia de Paulo Freire - se estamos mais preocupados em desempenhar, performar e "entregar tudo"? Hooks nos lembra que escutar, cuidar e criar comunidade é parte da existência e da resistência. Não é luxo.

Outros autores inspiram diálogos sobre a importância da comunidade e sobre como este mundo - ancorado na ideia de progresso, desenvolvimento e avanço - destrói a nossa humanidade e, com ela, a nossa capacidade de construir estas redes.

Ailton Krenak e Nêgo Bispo (que já citei em outros textos por aqui) nos lembram como as construções comunitárias são essenciais para a saúde e para nosso desenvolvimento como seres humanos. Não é à toa que este mundo acelerado condena tudo que nos faz gente e que nos desperta interesse em outras gentes. Angústia, solidão e cansaço são os motores deste mundo.

Outros autores inspiram diálogos sobre a importância da comunidade e sobre como este mundo - ancorado na ideia de progresso, desenvolvimento e avanço - destrói a nossa humanidade e, com ela, a nossa capacidade de construir estas redes.

Ailton Krenak e Nêgo Bispo (que já citei em outros textos por aqui) nos lembram como as construções comunitárias são essenciais para a saúde e para nosso desenvolvimento como seres humanos. Não é à toa que este mundo acelerado condena tudo que nos faz gente e que nos desperta interesse em outras gentes. Angústia, solidão e cansaço são os motores deste mundo.

Eu costumo perguntar por aí o que precisa acontecer para a gente entender de uma vez por todas que este projeto não deu certo e precisamos parar. Para respirar, para pensar, para voltar a sonhar e para voltar a nutrir, ter e ser comunidade. Para mim, não precisa acontecer mais nada. Só precisamos começar a (re)agir. E rápido. Pois isso sim é urgente.

(Com inforamões do UOL)

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