'Se organizar, todo mundo tem tempo': a falsa promessa dessa gestão


Agendas, planners, diários de metas? O começo de um ano em nosso calendário é um prato cheio para a máxima da gestão do tempo: "basta se organizar que você consegue realizar todos os seus planos".

Acontece que esta máxima contém vários equívocos. O primordial é a ideia de que o tempo é um recurso e pode ser gerenciado. O tempo, como afirma Antonio Candido, é o tecido da vida.

A ideia de que ele pode ser gerenciado caminha de mãos dadas com a ideia de que ele é apenas cronológico. Mas a concepção cronológica do tempo é uma das possíveis e não a única.

Vale também observar que os cronômetros surgiram para medir a duração de intervalos de tempo. Logo, passamos não mais a medir a duração das coisas quando elas acontecem, mas a estipular (de antemão) e tentar planejar (ou controlar) quanto tempo as coisas deveriam durar. O tempo ideal das coisas. Como se a vida pudesse ser medida assim.

Esta lógica cabe como uma luva na dinâmica capitalista da cultura da produtividade tóxica e do desempenho, da cultura do hiperconsumo e da dataficação da vida. O tempo passa a ser entendido como um recurso gerenciável e que deve ser dedicado ao trabalho e ao desempenho, ao consumo e às plataformas.

O curioso é que, ao mesmo tempo em que esmaga a vida entre tecnologia, trabalho e consumo, este mundo nos faz acreditar que basta escolher como queremos "usar" nosso tempo, que seremos donos e donas de nossas agendas e prioridades.

Esta é uma concepção cronomeritocrática da realidade, pois sabemos que, em contextos desiguais, as experiências temporais das pessoas são atravessadas por marcadores sociais, como gênero, raça, renda e classe social. Não é apenas uma questão de organização.

O que o capitalismo faz com o tempo é transformar em recurso mensurável e que deve ser "gasto" apenas com o que é útil. E tudo que não é "útil" (mas que é justamente o essencial ao humano, como os encontros, as conversas, as festas, a arte, o descanso, o sono) é quase um crime.

"Mas o tempo não é de se gastar nem de se perder nem de se usar. Tempo é de se viver."

Aí você pode estar pensando "é fácil dizer isso. Quero ver na prática. Vem aqui pagar meus boletos e me dizer que não devo gerenciar meu tempo".

Eu sei como funciona. E de forma alguma estou querendo sugerir que não devemos nos organizar. Pelo contrário. Planejar é extremamente importante. Mas precisamos cuidar da armadilha do discurso neoliberal que afirma que basta nos organizarmos.

Pois são também estes discursos que nos vendem soluções mirabolantes e fórmulas mágicas de tempo que vão apenas produzir raiva e frustração.

"Se acreditamos que basta planejar e gerenciar o tempo que vai sair tudo como se planejou, esse é o primeiro passo para se considerar um fracasso quando o planejamento 'falhar' (ou quando nem conseguimos elaborar as tais das 'metas')."

É importante planejar, mas devemos entender que quanto mais planejamos, mais estamos prontos para improvisar. E que, no fundo, é isso que a vida pede de nós. Essa é a ideia de consciência temporal.

A gestão do tempo sugere que devemos dizer muitos "sim" (aqueles, os úteis) e basta organizá-los.

"A consciência temporal sugere que devemos dizer bons nãos. Os nãos possíveis. E acomodar os nãos que não conseguimos dizer (porque são necessários, na relação com o trabalho, a família e os pratinhos que não podem cair)."

Se, a partir desta perspectiva, eu pudesse dar algumas dicas (ainda que não se trate de uma lista, porque as fórmulas prontas não me agradam), acho que elas seriam:

Não transforme tudo em meta.

Pense que nãos são possíveis.

Não se responsabilize nem pense que errou se algo não ocorrer como planejou.

O melhor preparo é estar pronto para lidar com o que acontece.

Seus problemas de tempo não são apenas seus: alguns deles estão a seu alcance. Em relação a estes, vale pensar quanto tempo você dedica ou deixa de dedicar ao que considera prioritário.

Outros problemas são fruto das urgências fabricadas pelo mundo acelerado e podem ser manejados com mais consciência. Outros são mazelas sociais que não dependem de você.


"Não é verdade que basta se organizar. Não caia nesta armadilha geradora de frustração e ansiedade."

(Com informações do UOL)

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