A ciência do agradecer

A gratidão não exige que tudo esteja bem para existir. Muitas vezes, nasce justamente nos períodos difíceis, funcionando como um contrapeso emocional


Há sentimentos que parecem simples à primeira vista, mas que carregam uma força silenciosa, quase transformadora. E, muitas vezes, é na simplicidade que encontramos os gestos mais revolucionários. A gratidão é um deles. Talvez porque não dependa de grandes acontecimentos, mas de algo íntimo e despretensioso: a escolha de perceber. De olhar o mundo pelo que ele nos oferece, e não apenas pelo que ele nos exige.

A ciência, aliás, confirma o que a nossa intuição sempre soube e que eu, pessoalmente, sempre senti. Para aprofundar essa compreensão, em 2023 reuni um grupo de pesquisadores renomados para realizar uma revisão sistemática sobre o tema. O resultado foi publicado na revista científica do Hospital Israelita Albert Einstein.

Foram analisados mais de 5.500 artigos, dos quais 64 estudos foram selecionados, reunindo dados de 1.486 pessoas. Tudo isso para entender, de forma concreta, como práticas de gratidão influenciam bem-estar, qualidade de vida e longevidade. E os resultados falam por si: quem cultiva gratidão apresenta maior bem-estar, menos ansiedade, menos sintomas de depressão e mais satisfação com a própria vida.

Segundo essa mesma metanálise, a gratidão aumentou o bem-estar geral em até 5,8%, reduziu sintomas de ansiedade em 7,76% e de depressão em 6,89%. Também ampliou emoções positivas, apreciação, otimismo e incentivou comportamentos pró-sociais como generosidade e colaboração. Não são números frios, são mudanças reais na forma como as pessoas se sentem, se relacionam e enfrentam seus dias.

E, para mim, o mais impactante é que que a gratidão não exige rituais complexos. Ela cabe num diário, numa carta, numa conversa breve, em um sorriso ou até naquele instante silencioso em que lembramos de algo bom que aconteceu. Os estudos mostram que até intervenções breves já fazem diferença. A gratidão, ao que tudo indica, é democrática: funciona para diferentes idades, contextos e realidades.

A literatura internacional aponta para o mesmo caminho. O psicólogo Robert Emmons, referência mundial no tema, demonstra que pessoas que cultivam gratidão têm mais energia vital, esperança e resiliência emocional. Ele e o pesquisador Michael McCullough mostram que a gratidão está associada a maior otimismo, empatia e melhor convivência social, elementos que moldam não só vidas individuais, mas também comunidades inteiras.

Há ainda um aspecto que me toca profundamente: a gratidão não exige que tudo esteja bem para existir. Muitas vezes, ela nasce justamente nos períodos difíceis, funcionando como um contrapeso emocional. Ela não nega o sofrimento, mas o suaviza. Não elimina os desafios, mas abre espaço para um pouco de luz. Talvez por isso seja vista como ferramenta complementar no cuidado com ansiedade e depressão. Passei por momentos muito desafiadores na minha trajetória, mas sempre me lembrei de agradecer pois tinha muito claro que viver aquilo seria uma oportunidade de aprendizado e resiliência.

Quando alguém agradece, transmite não apenas reconhecimento, mas presença. Em meio a tantos ruídos, agradecer é um gesto de aproximação, uma forma delicada de dizer: “eu vejo você”. Talvez esse seja o verdadeiro convite da gratidão: desacelerar o olhar, reconhecer o que sustenta, permitir que a gentileza, tanto no âmbito individual quando no coletivo, tenha mais espaço. Não como uma técnica distante, mas como um hábito que alinha emoções, fortalece o espírito e transforma, pouco a pouco, a maneira como caminhamos pela vida.

Com o tempo, compreendi que a vida não se sustenta nos grandes feitos, mas no reconhecimento do que nos ampara diariamente. A gratidão se tornou, para mim, essa bússola silenciosa, um jeito de estar mais presente e seguir com mais leveza. Uma lente que clareia o essencial e suaviza o passo. E, quando encontra outra pessoa, multiplica a luz. Porque agradecer não muda apenas o dia. Muda o corpo, a mente e o coração. E, se acreditarmos na ciência, talvez seja essa uma das formas mais simples e mais transformadoras de cultivar paz.

(Com informações do CNN Brasil)

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