Brincadeiras entre adolescentes pode ser fatal; jovem de 17 anos que tinha acabado de passar em cinco vestibulares em Fortaleza e um em João Pessoa faleceu de uma forma trágica, após inalar um desodorante spray

Segunda-feira, 12 de Outubro de 2015
Brincadeiras entre adolescentes pode ser fatal
Desde fevereiro deste ano, o historiador Adalto Leitão convive com um drama familiar. Seu único filho, de 17 anos, faleceu de uma forma trágica, após inalar um desodorante spary durante uma brincadeira com amigos. Segundo o pai, o jovem era feliz e tinha um futuro promissor pela frente. Tinha acabado de passar em cinco vestibulares em Fortaleza e um em João Pessoa. Porém, as comemorações foram interrompidas. “Com meu filho aconteceu de ele inalar o desodorante spray, que ao obstruir o nariz e a boca, causa uma alucinação rápida. Ele aspirou tudo e trancou as vias respiratórias, o que gerou um desmaio pela falta de ar. Com isso, ele ficou inconsciente, chegou a ser levado para o hospital, mas no meio do trajeto houve rompimento de uma artéria causando hemorragia. Ele não resistiu e faleceu”, disse Adalto, emocionado.




A fatalidade que ocorreu na vida do filho de Adauto pode acontecer com qualquer outro adolescente ou criança, ao serem induzidas pelo desafio de praticar uma brincadeira perigosa. Dentre as mais comuns, está o jogo do desmaio, o da asfixia e a do estrangulamento. Aparentemente inofensivas e erroneamente difundidas e caracterizadas como brincadeiras, na verdade, apresentam risco real e nada divertido à vida dos praticantes. Ambos os jogos têm em comum atitudes que reduzem a oxigenação no cérebro. As consequências podem ser graves ou até mesmo fatais, como ocorreu com o filho de Adauto.

Alerta

Hoje, o historiador acredita que seu testemunho serve de alerta a outros pais e até para as escolas, no sentido de que fiquem atentos aos comportamentos e atitudes das crianças e adolescentes, principalmente quando envolve internet. “Meu testemunho é o mínimo que posso fazer para contribuir com o conhecimento e que sirva de alerta para isso que está acontecendo no Brasil e na nossa cidade. Muitos jovens já morreram por causa dessa brincadeira. O pior é que muitas vezes o Instituto Médico Legal (IML) coloca no laudo cadavérico a causa da morte como suicídio e logo vem aquele sentimento de culpa pela família. E não era. Era um jogo”, alerta.
Desconhecimento
As mortes causadas por esse tipo de brincadeira ainda são silenciosas. Em princípio, os profissionais consideram o desmaio à eventualidade ou relacionam a morte ao suicídio. Como afirma Sérgio Lépine, bombeiro civil do Centro de Resgate e Emergência Pré-Hospitalar, “muitos profissionais não têm conhecimentos dessa brincadeira e acabam tratando a pessoa como vítima de desmaio simples. Essa brincadeira pode envolver lesões na região respiratória, cervical, e até mesmo estrangulamento”, afirma.
Ocorrências
“As ocorrências que chegam pra gente são de crianças desmaiadas, maioria em estabelecimentos escolares. Chegando ao local, as pessoas dizem que é um mal estar, um desmaio, mas, na verdade, é uma brincadeira perigosa”, explica o bombeiro Sérgio Lépine.
Segundo Sérgio, que já tem experiência nesse tipo de socorro, a vítima pode ficar em um dos três graus de perigo: ficar inconsciente, ainda respirando, sendo reanimada logo; ficar inconsciente com parada respiratória e cardíaca, sendo necessário um trabalho de ventilação forçada para que a atividade respiratória e cardíaca retorne; sofrer convulsões ou desmaios, o que pode ocasionar a morte. “Mas, não entra nas estatísticas como brincadeiras perigosas porque os profissionais ainda não sabem fazer a diferença e investigação”, ressalta Sérgio.
Sequelas
A psicóloga do Instituto Instituto Dimi Cuida, Fabiana Vasconcelos, cita que, dentre as sequelas decorrentes das brincadeiras, as principais são: a anoxia (ausência de oxigênio no cérebro), o que pode provocar ataque cardíaco devido à falta de oxigenação, como da queda física, em caso de bater a cabeça ao cair. Portanto, se o praticante não falecer, ele pode ter paralisia, cegueira, perda da cognição, hemorragia dos olhos.
A psicóloga aponta que as crianças e adolescentes não têm noção do perigo. “Eles não sabem o que é o risco, o cérebro só resiste sem oxigênio por um minuto. Entre um e dois minutos já acontece danos neuronais que podem ocasionar as sequelas”, informa. De acordo com ela, é preciso compreender como a respiração é importante e como a falta de ar impede que os órgãos internos funcionem.
Sinais físicos
Fabiana descreve que alguns sinais que podem ser observados pelos pais e educadores de que os filhos podem estar praticando alguma brincadeira perigosa são: olhos vermelhos, fortes dores de cabeça constantemente, perda de memória, passar muito tempo sozinho (trancado), desorientação e queimadura na perna (causada pelo spray).
A psicóloga também salienta para mudanças no comportamento como a preferência em utilizar roupas de mangas cumpridas, calças ou gola alta. “Pode ser um sinal de alerta”, descreve.
Orientação
Fabiana orienta que conversar com os filhos e se interessar pelo o que acontece com eles é a melhor atitude a ser tomada. Segundo ela, perguntar diretamente se o filho pratica brincadeira perigosa não é aconselhado. “Desta forma estará levando a informação de uma forma a despertar a curiosidade. O caminho é perguntar que tipo de brincadeira acontece atualmente nas escolas, se existe alguma que ele considere perigosa. Tem que deixar a criança falar”, adverte.
Caso a criança mencione alguma delas, deve sentar-se com ela e explicar por que não se deve fazer, dizer as consequências ao corpo se ficar sem oxigênio, o risco de morte e as sequelas irreversíveis.
Instituto reúne pais e difunde os perigos das brincadeiras
Em Fortaleza, o empresário Demétrio Jereissati fundou o Instituto Dimi Cuida com o objetivo de desenvolver pesquisas e estudos para levar conhecimento aos profissionais da saúde, educadores e pais sobre essa prática que acomete tantas famílias desconhecedoras do fato. O empresário foi mais um que perdeu o filho em uma dessas brincadeiras.
De acordo com Fabiana Vasconcelos, psicóloga do instituto, o lema norteador para a informação alcançar o maior número de pessoas é: Conhecer, compreender e prevenir. Segundo ela, os jogos se propagam pela internet. Atualmente, mais de 20 mil vídeos são compartilhados nas plataformas sociais mostrando as experiências de quem fez ou ensinando como fazer. “Os pais devem monitorar a internet. Ver o histórico do computador da casa, que tipo de informação está entrando”, alerta.
O cenário mais propício de as brincadeiras acontecerem é nas escolas, por isso, a importância dos profissionais de educação tomarem conhecimento. “Antes de a gente levar um trabalho de prevenção às escolas, as brincadeiras perigosas precisam ser conscientes e entendidas como existentes pelos adultos que estão com essas crianças, que são os pais e profissionais”, destacou Fabiana.

Fonte: O Estado CE Online








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